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Do Tempo das Descobertas: Biblioteca Municipal

Segunda-feira, 25.01.10

 

Sempre gostei de bibliotecas, das suas mesas alinhadas, dos seus suportes de madeira em cima e tudo. É assim que eu imagino esta biblioteca que descobri no Esquissos.

 

 

" Biblioteca Municipal

 
(escrito num intervalo de cinco minutos)

Andava a ler literatura russa. As portas da biblioteca municipal escancaravam-se e logo ele sentado na mesa de madeira transversal à estante. Cuidava que não podia deixar de existir sem entranhar as sábias palavras dos sábios russos. Portanto, deixou-se desvanecer dos propósitos sociais da vida, unha e carne com a lombada poeirenta dos livros expostos à espera que os avivassem. De vez em quando um funcionário preocupado com a sua alimentação ou falta dela trazia-lhe uma sandes de queijo. Ele aceitava, não desviando uma nesga a atenção das páginas pálidas de tão amarelas. Às sete e meia o segurança agarrava-lhe um braço e expulsava-o rotineiramente. No dia seguinte o ciclo recomeçava.
Ela apareceu nas últimas semanas da sua proeza, escondida debaixo dos óculos de massa pretos. Acariciava os livros com mãos delicadas, roçava-as nas capas dos romances. Escusado será dizer que da mesma e não raras vezes ingénua maneira, acariciava-lhe os lábios e a face em goladas de ar húmido. Pelo menos era o que, no instinto de macho sustido, o agoniava. Não se precipitou. Ao fechar o último livro tomou-a nos braços como carne impressa editada para ele. Acariciou-lhe os lábios e roçou-lhe a face. Afinal de contas, apenas tinham Dostoiévski, Tolstói e o resto dos sábios como testemunhas.  "

 
" Biblioteca Municipal II

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:10

Do Tempo das Descobertas: "Der himmel über Berlin" e "Ao fim de uns dias"

Sábado, 23.01.10

 

Do Vontade Indómita dois posts que nos levam até Berlim e a um bater de asas que nos recorda um filme poético de Wim Wenders e a maior aventura de um anjo: tornar-se homem, e ficar sujeito à condição de mortal, às sensações, às emoções, aos sentimentos.

 

 

" Der himmel über Berlin

 

 



Als das Kind Kind war, / ging es mit hängenden Armen, / wollte der Bach sei ein Fluß, / der Fluß sei ein Strom, / und diese Pfütze das Meer. // Als das Kind Kind war, / wußte es nicht, / daß es Kind war, / alles war ihm beseelt, / und alle Seelen waren eins. [...]

Não sei alemão. Não obstante, este poema de Peter Handke em voz-off, na cena da impressionante Staatsbibliothek, é dos momentos «mais belos» (ordem estética) do filme de Wenders. Por isso, amanhã de manhã para lá vou eu, com a fonética destra métrica na cabeça à procura de Damiel e Cassiel. Para o que der e vier.  "

" ao fim de uns dias,

a neve continua a cobrir a cidade com um manto branco e posso igualmente dizer que ainda não encontrei Damiel ou Cassiel. Nem na Staatsbibliothek, nem na estátua ao cimo da Siegessäule onde Wenders os filmou. No entanto, já vi uma ou outra mulher com a leveza & graça da trapezista Marion. Essa mesma figura misteriosa e solitária que foi a responsável por fazer um anjo recusar a dádiva divina, insípida e sentimentalmente distante da imortalidade. Uma ou outra, dizia eu, ou não fosse esta semana a Fashion Week Berlin.  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:55








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